sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Eu contra o mundo, o mundo contra mim !

Sou o Roberto, sou do mundo, sou diferente de toda a gente. Todos os dias vivo em sofrimento, todos os dias sou vítima das pessoas, das maldades das pessoas, da crueldade das pessoas. Não sou feliz. Feliz é aquele que vive com as pessoas. Eu vivo contra as pessoas, não tenho amigos. Não tenho ninguém. Sou mais um nesta sociedade demoníaca. A minha mãe morreu um dia depois de ter nascido enquanto o meu pai, com medo de não me conseguir sustentar a minha e a este peso que me veio pegado, abandonou-me numa associação de solidariedade.
Mesmo lá fui maltratado injustiçado devido à incompreensão das pessoas devido à minha dificuldade, e mal fiz os 18 anos fui posto na rua literalmente às escuras.
Caminhei sem ver qualquer luz ao fundo do túnel. Não sabia onde dormia, não sabia o que comia, não sabia quem me via.
Até ao dia em que a conheci. Vi-a com o coração, levou-me para casa dela, tratei-a por mãe. Não sabia quem era, nunca a tinha visto antes, nem hoje a consigo olhar de frente.
Ajudou-me muito, ela falava muito comigo, naquela altura dizia-se que tinha cerca de 20 anos e que era bem giro, dizia-se porque eu nunca vi tal coisa.
A rapariga que me acolheu começou a dizer que se apaixonou por mim, que eu era uma brilhante companhia. Chamava-se Helena e disse-me que tinha 25anos, era morena, olhos verdes e magra. Apaixonei-me também por ela, os seus gestos suaves naquelas mãos macias preenchiam os dias.
Dávamos longas caminhadas pelo parque bem agarrados, que ela me guiava.
Nunca me contou nada da vida dela, disse-me que não queria falar sobre isso, aceitei porque também não queria falar da minha.
Um dia acordei, rebolei, tinha a vista tapada talvez devido ao sono e não a vi ao meu lado, remexi a casa toda não consiga ver nada de valor. Ela deixou-me fiquei desesperado numa casa sem nada.
Com dificuldade devido ao meu handicap sai de casa e vagueei por ai. O Homem bateu-me, magoou-me atraiçoou-me. Hoje ando num lar de idosos, não sei como são os que me acompanhou.
Porque eu sou o Roberto, sou do mundo, sou diferente de toda a gente. Nasci com cegueira crónica!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O amor nos dias de Hoje

Encontraram-se, foram para o quarto dela, não aguentaram mais aquela ânsia que estava dentro deles, aquele fogo que ardia sem se ver. Beijaram-se, prometeram juras de amor eterno, fizeram amor, voltaram-se a beijar, voltaram a fazer a amor, até adormecerem agarrados não se querendo separar até o mundo acabar.
Nada nem ninguem tinha o direito de estragar este momento.
No dia seguinte acordaram, tomaram banho e disseram:
- Olá, eu sou o André.
- Olá, eu sou a Sofia.
Ela saiu, nunca mais se viram.

Abel

Abel era dono de uma imponente cadeia de supermercados. Casado com Isabel, pai de 2 filhos já adultos, podia-se dizer que era um homem feliz. Mas não era.
O seu papel na sociedade era de uma importância demasiada para o seu agrado, o que o obrigara a estar casado até aos dias de hoje, pois o amor de outrora já se tinha esquecido de existir.
Era com este pensamento mútuo que Abel e Isabel viviam os seus dias.
Isabel não trabalhava, passava horas em compras, SPA´s e cabeleireiros. Os seus compromissos eram com as amigas. Vivia às custas do marido e da sua condição social.
Este estilo de vida de Isabel deixava Abel transtornadíssimo, e nem nos filhos se poderia apoiar.
Maria e Guilherme, tinham 23 e 24 anos respectivamente. Ela era cientista no importante laboratório londrino, enquanto ele era astronauta na NASA, vivendo nos Estados Unidos.
O quotidiano de Abel era sempre o mesmo, reuniões em diversos países, negócios, trabalho, trabalho e trabalho. Ao longo dos anos absorveu-se dos seus problemas, vivendo apenas e so para o trabalho de forma a dar um futuro melhor aos seus filhos, mas agora estava farto, não tinha companhia, sentia-se sozinho.
Foi com este pensamento que Abel resolveu ir a uma casa de striptease fora da cidade depois de mais um longo dia de trabalho.
Entrou, sentou-se e bebeu whisky com duas pedras de gelo. Naquele local Abel sentiu-se bem. Não pela enorme quantidade de raparigas do leste que por lá andava, mas por ter visto lá uma grande percentagem de pessoas como ele, pessoas com falta de companhia feminina e que tinham de encontrar outras soluções.
Nessa noite, Abel esteve na casa de strip até às 2horas. Conversou com vários clientes como ele, também homens de negócios, desabafou, sentiu-se bem.
Como aquela noite, mais noites se seguiram. Durante semanas, quase diariamente ele ia a essa casa. Numa dessas vezes, foi atacado por uma das prostitutas da casa. Para Abel, era linda, alta, esbelta, longos cabelos louros, olhos azuis. Por um momento veio-lhe à cabeça à quanto tempo não teria sexo com alguém. Não hesitou, levou-a para um motel rasco nos subúrbios da cidade, fazendo aquilo que lhe competia.
No dia seguinte, Abel reparou melhor na mulher com quem tivera sexo nessa mesma noite, não se tinha enganado. Quando ela acordou falaram. Chamava-se Vanessa, tinha 28anos, era portuguesa. Aquela era a sua primeira semana como prostituta, pois tinha um filho pequeno, o Francisco, cujo pai abandonou-os há pouco tempo. Trabalhava num café à tarde, e era prostituta à noite.
Naquele momento ela chorou, disse que tinha sido difícil aguentar taras e manias de homens desejosos por sexo durante aquela semana e que ele tinha sido o melhor cliente com quem ela já teve.
A partir daí todas as noites Abel era cliente exclusivo de Vanessa, todas as noites tinham sexo para que depois no dia seguinte conversassem sobre a vida. A desculpa para a Isabel englobava-se num contexto amplo de “um importante jantar de negócios”.
A cumplicidade entre ambos aumentava a olhos vistos, até ao dia em que Abel prometeu a Vanessa que ficariam juntos mas com tempo, naquele momento apenas lhe pediu para deixar a casa de strip e que lhe daria dinheiro para sustentar o filho dela.
Os tempos seguintes foram difíceis, Abel mal conseguia tempo para ter duas mulheres e o seu emprego, tinha de fazer uma escolha, não queria fazer essa escolha.
Por um lado a mulher de tantos anos, por outro a mulher que lhe dava tanta atenção e carinho. Sentiu-se obrigado a escolher: Vanessa.
Preparou discursos para a mulher para os filhos e para Vanessa.
Rapidamente foi marginalizado por todos.
Os filhos recusaram-se a aceitar essa relação tenebrosa, e Isabel num acto de loucura e desespero cometeu o suicídio.
Foi o descalabro, Maria e Guilherme culparam o pai por todo o sofrimento que lhes cometeu, e Abel com remorsos foi incapaz de assumir uma relação com Vanessa.
Esta ficou desgostosa da atitude daquele homem que se mostrara tão prestável e tão amoroso com ela, voltou para a casa de strip, apaixonando-se depois com o dono da casa.
Enquanto isso, Abel, sem o amor daqueles que ama, vende a sua cadeia de supermercados e parte para parte incerta, vivendo os sues dias no luxo e bem-estar.
Hoje Vanessa é uma alta empresária portuguesa no estrangeiro. Juntamente com o seu marido criaram uma empresa de iogurtes famosa por todo o mundo. Maria casou-se e Guilherme está a fazer uma expedição espacial de 6 meses.
Quanto a Abel, nada se sabe, ouviu-se por ai dizer que passeava num iate pelas ilhas do Pacifico completamente só.

Abril

Era Abril. Nos corredores do liceu amontoavam-se alunos numa correria desenfreada para o recreio.
Ao fundo lá vinha ele, Martim, o rapaz mais famoso do liceu. Era boémio, andava no 12º ano, alto, moreno, olhos verdes, bem parecido, rico. Era bom aluno, andava de mota e tocava guitarra. O seu pai era um alto senhor das finanças, enquanto a sua mãe passava a vida a passear pelas lojas chiques da cidade. Toda a gente queria ser amigo dele, e não perdia a conta às namoradas que já teve. A sua vida era mesmo assim, festas, muitas festas, noites de loucura era o que ele mais gostava, mas não com álcool, nem tabaco. Considerava isso para fracos que se queriam mostrar. Considerava isso desnecessário pois já atraía as atenções o suficiente.
Nesse dia, vinha calmamente passeando, exibia a sua roupa de marca, uns jeans justos uma camisa da moda que condizia com as vistosas sapatilhas, fazia de propósito. Adorava a atenção, de ser o centro das atenções, mas não era insolente, não se gabava, preferia que as pessoas tirassem as suas próprias ilusões e conclusões.
Desceu as escadas para ir beber café, e lá no meio de tantas pessoas viu-a.
Usava também roupa de marca, mas não era o centro das atenções.
Era mais baixa que ele, loura, grandes olhos castanhos-claros, uma pele clara. Uma beleza pura. Estava a falar com as amigas, mas olharam-se. Parecia que o mundo tinha parado naquele momento, foi um segundo, parecia um ano. Não a conhecia, certamente seria mais nova que ele mas para ele, isso nem importava. Certamente teria visto uma dúzia de vezes, mas no meio de tanta gente não reparou nela, talvez fosse mais uma das suas admiradoras. Achou-se parvo por não ter reparado em tal beleza. Naquele rodopio todo de formas e gentes ela evaporou-se, não a conseguiu ver.
Esqueceu-se de tudo a partir daquele momento, foi atrás dela, queria conhecer, queria ver aqueles olhos. Não a conseguiu encontrar mais. Nesse dia faltou as aulas, não almoçou nem jantou, não pensou em mais nada a não ser naquela pessoa com uma forma tão angelical.
Foi à procura do registo dela no liceu, arriscou a expulsão mais que uma vez, mas conseguiu saber o seu nome. Chamava-se Matilde, tinha 16 anos andava no 11ºano. Soube a morada dela, enviou-lhe uma carta. Ela respondeu-lhe, combinaram um encontro em segredo. Naquela altura as roupas de marca passaram para segundo plano e as atenções foram todas só para a Matilde. Até ao dia do encontro combinaram locais estratégicos para se puderem ver, par puderem sorrir.
O dia do encontro chegou, foi no banco de jardim da cidade depois das aulas. Ele chegou mais cedo, veio a correr, a voar. Pouco tempo depois apareceu também ela e as suas faces rosadas, denunciavam também uma correria desenfreada até ao encontro.
Sentaram-se, falaram sobre a vida como se se conhecessem há anos. Ele pode saber tudo sobre ela.
Chamava-se Matilde tinha 16 anos andava no 11º ano, o seu pai era arquitecto, a sua mãe advogada, tinha ainda um irmão pequeno, o Rodrigo, era uma excelente aluna, e sonhava seguir medicina.
Começaram a falar sobre eles, ela disse que mal acreditava que o rapaz mais famoso do liceu reparou nela, estava a viver um conto de fadas.
Foram-se embora, os encontros sucediam-se quase diariamente, falavam sobre tudo música, arte, política, economia até que ele lhe escreveu uma carta com apenas duas palavras: «Eu amo-te!».
Meteu-lhe na mala e não lhe disse nada. No dia seguinte, mal chegou à escola, viu-a, não foi preciso mais nada, beijaram-se. Nesse momento as pessoas olhavam, comentavam, mas eles não ligavam. O beijo não foi longo, foi rápido, tímido, a medo. Não sabiam a reacção um do outro, sorriram.
Deram a mão, foram para as aulas.
Rapidamente a notícia do namoro foi tema de ordem. Eles eram diferentes. Ele, o rapaz mais requisitado do colégio, ela uma simples rapariga do 11ºano.
Por muito que não ligassem não era fácil, o mundo estava contra eles, conversavam na escola, e encontravam-se no banco de jardim depois das aulas. Perderam amigos. Ele rapidamente passou a ser o antigo número um do liceu.
Os anos passaram, eles fizeram tudo à sua maneira, não houve apresentações à família nem nada dessas tangas modernas, eles amavam-se e isso é que importava.
Entraram na universidade, casaram-se, tiveram filhos.
Hoje têm aproximadamente 30 anos. Ele é um conceituado estilista e trabalha para as melhores marcas do mundo, enquanto que ela é médica numa imponente clínica privada. Criam fortuna no estrangeiro, têm 3filhos gémeos a Mariana o Afonso e a Gabriela de 4 anos. Vivem numa casa enorme, e têm outra de férias.
Amaram o impossível, são felizes….